Blog

Quando nos descobrimos diferentes de nossos desejos ou das expectativas dos outros

Contatos Imediatos do Terceiro Grau

Meu primeiro contato com tipologia junguiana ocorreu com o famoso (e famigerado) questionário MBTI – Myers-Briggs Type Indicator, em 1999, nos primeiros meses do meu MBA em Boston. Na minha época, minha escola aplicava o questionário a todos os 880 alunos de primeiro ano e fazia uma devolutiva coletiva.

 

Explicando os conceitos para os não-iniciados: a teoria tipológica foi escrita por Carl Gustav Jung, em 1921. Em 1940, Isabel Myers, escritora e psicóloga estadunidense, foi co-criadora (junto com a mãe – Katherine Briggs) do MBTI, um questionário que identifica as dimensões que diferenciam cada um dos dezesseis tipos psicológicos. Tipos psicológicos podem ser entendidos como padrões repetitivos de comportamento, que independem de cultura, sexo, e idade, começando a ser identificáveis por volta dos sete anos e permanecendo imutável até o final da vida. O tipo não muda, mas as pessoas (algumas) amadurecem.

 

De forma muito simplificada, Jung observou algumas dicotomias úteis (preferências opostas) que diferenciam claramente um padrão de comportamento de outro. A primeira dimensão que ele identificou é constituída de duas atitudes: Extrovertida (a atenção está voltada para o mundo das coisas e das pessoas) e Introvertida (o foco de atenção está voltado para o mundo interior).

 

A segunda dimensão inclui as funções de decisão: Pensamento e Sentimento. A função Pensamento pode ser subdividida em (1) racionalização de situações – eu ganho e alguém perde, vantagem e desvantagem; (2) lógica conectiva – causa e efeito, as coisas fazem sentido desta forma. A função Sentimento pode ser subdividida em (1) valores pessoais (isto está certo ou errado); (2) comportamentos expressos (gosto ou não gosto de como o outro está agindo).

 

A terceira dimensão inclui as funções de percepção do mundo: Sensação e Intuição. A função Sensação pode ser subdividida em (1) Concretude do aqui e agora – os fatos e a realidade diante de mim; (2) Concretude do passado – os fatos e a realidade que vivi. A função Intuição pode ser subdivida em (1) Futuro criativo – ideias e visões no mundo real; (2) Simbologia do oculto – sínteses conceituais eternas ou atemporais.

 

A quarta dimensão mostra com qual função você interage predominantemente com o mundo externo: perceptiva (prefere não revelar a decisão ou conclusão sobre algo de imediato, deixa estar para eu ver como fica) ou julgadora (prefere dizer o que as pessoas devem ser ou fazer).

 

Quando o resultado do meu questionário MBTI veio na forma de um relatório padrão, me surpreendi com algumas coisas que estavam escritas. Primeiro, parecia que o relatório tinha revelado coisas íntimas, características minhas que eu sabia ter, mas para as quais eu nunca havia dado muita atenção. Minha mente, cientificamente cética e arduamente treinada nas trincheiras da engenharia, estava confusa. Se por um lado, horóscopo e aquilo pareciam a mesma coisa, por outro, algo dentro de mim estava perplexo, senti-me incompetente por não ter percebido que aquelas características me distinguiam das pessoas na minha família, no trabalho e no meu passarinhos diferentes para sitecírculo de amizade mais próximo.

E não é que o E.T. era eu!!!!!!!!!!

Mas, inexoravelmente, o relatório fazia sentido para mim, havia verdade no que estava escrito ali. Secretamente, senti uma sensação de alívio – eu sabia, eu sempre soube. Guardei aquela informação nova num dos muitos escaninhos da minha mente, devidamente catalogado como “coisa curiosa a ser explorada depois”. Tolinha… como se a gente pudesse esconder algo tão importante de nós mesmos? O estrago estava feito, o invisível fora revelado, o “adormecido fora acordado” como diria Frank Herbert, autor de Duna.

 

Ao longo da apresentação das consultoras, durante a devolutiva coletiva sobre o instrumento, lembrei-me de outras capacidades como entrega, detalhe, presteza, responsabilidade, coisas que eu me orgulhava de ter ou saber fazer, que eram valorizadas no meu trabalho anterior ao MBA, e nas quais eu fora bem avaliada até então. Por que aquelas características não apareciam no meu relatório?

 

Só voltei a esta questão muitos anos depois, quando finalmente comecei a entender sobre funções-atitudes descritas por Dr. John Beebe, tipologia, consciente e inconsciente, complexos, arquétipos, persona, ou seja, uma parafernália junguiana que hoje é tão querida e útil para mim.

 

Depois da devolutiva coletiva, fui tirar dúvidas com as consultoras sobre os meus indicadores de clareza estarem terrivelmente baixos em todas as quatro dimensões. A resposta foi sobre minha flexibilidade para navegar entre as dicotomias: nem tanto extrovertida, nem tanto introvertida; nem tanto Pensamento ou Sentimento, blá blá blá. Enfim, eu era um tom pastel numa pintura de aquarela ainda molhada. A resposta sobre eu navegar bem entre dicotomias teve gosto de comida insossa de hospital.

 

Quando nos permitimos ser

 

Hoje, revivendo meu primeiro contato com tipologia (acredite, reviver o passado para mim é como tomar remédio amargo), tive um insight interessante. Eu me lembrei de que, ao responder o questionário, me senti dividida entre responder o que esperavam de mim no trabalho anterior, coisas que eu tinha muito orgulho de ter desenvolvido com grande sacrifício, e o que eu realmente gostava.

 

Lembrei que, ao responder, lá pelo meio do questionário, pensei: “Ah, que se dane, vou responder o que realmente gosto.” Eu deixei meu lado arriscado e criativo finalmente sair do armário. Afinal de contas, estar no MBA era um momento de repensar o futuro, de abrir novos horizontes e possibilidades para minha carreira. Por que não deixar o instinto se revelar e ver o que o tal teste diria sobre quem eu era? Eu estava aberta a me conhecer melhor, sem verniz. Que bom que tive este ímpeto!

 

É bem capaz que esta “eu-zinha” tenha saído por conta própria, direto do inconsciente, rebelde e sem censura, querendo e precisando se expressar, depois de tanta repressão da minha própria natureza, depois de tanta adaptação. Obviamente, na consultoria que trabalhei antes do MBA, levei anos para reconciliar minha natureza com as expectativas do ambiente corporativo ao meu redor, não sem muito dilema e dor.

 

Ao encontrar “minha turma”, eu havia me livrado da persona, da adaptação inconsciente. Como diriam os junguianos, é preciso diferenciar para individuar, ou seja, é preciso separar o que você é, do que não é, antes de atingir a síntese do autodesenvolvimento pleno.

 

Ainda que o relatório oficial do instrumento seja por demais “politicamente correto” para servir realmente como instrumento de desenvolvimento, a verdadeira natureza da minha tipologia foi mais tarde revelada pelos aprofundamentos dos estudos e artigos de Dr. John Beebe.

 

ENTP “eu era” – uma visionária instigadora.

 

Criativa, rebelde, questionadora, idealista, ruidosa, sonhadora, independente, reinventando a roda a cada problema, abraçando o desconhecido como um velho amigo, polianamente otimista, flexível que nem maria-mole, apaixonada por minhas próprias criações, irremediavelmente sem passado e em identidade, loucamente arriscada, rapidamente entendiável, ligeiramente irresponsável (há controvérsias sobre o ligeiramente), consistentemente inesperada, assustadoramente lógica, inesperadamente moleca e informal, irritantemente emotiva e agressiva quando frustrada, insensivelmente crítica, terrivelmente dúbia, irremediavelmente indisciplina, incapaz de tolerar detalhes e rotinas, com pensamentos abertos e pouco específicos, completamente desinteressada em controlar ou ser controlada, desdenhosa de referências e experiên cias, ciosa da minha competência, excessivamente contextualizante, e incansavelmente falante.

 

Desculpe se causei repulsa aos outros quinze tipos não-ENTP’s – só sei quem eu sou, o resto é uma adaptação às demandas profissionais, relacionais e sociais.

 

A identificação com a persona, com a autoimagem distorcida que fazemos de nós mesmos, é um mecanismo de adaptação, de proteção e bastante natural, dentro de um certo limite. Infelizmente, há pessoas com uma personalidade mais fraca, que tendem a se identificar tão inconscientemente com o que os outros esperaram dela, que perdem contato com sua natureza mais estruturante que é a tipologia.

 

No mundo corporativo, esta autoimagem distorcida em geral é muito inflada e polarizada. Falemos sobre isso em outro artigo.

 

Enfim liberta e autoconsciente, entendi os preços que paguei no passado quando esperavam algo de mim que poderia ser muito diferente de minha natureza. Aprendi a buscar a adaptação conscientemente, entendendo que certas coisas sempre serão mais difíceis e custosas para mim, como focar em detalhes, ser conservadora, buscar minhas experiências do passado, ser econômica, ter foco no que é viável e não no que é inovador, aplicar um pouco de comando e controle disciplinador, me planejar e cumprir até o fim uma tarefa e avisar aos outros quando mudei de ideia.

 

Fica aqui meueinstein tongue testemunho sobre a tribo dos visionários instigadores.

Rebeldes irreverentes, uni-vos!

Vamos mudar o mundo!!!!!!!!!!!!!!!

 

 

 

Mal sabia eu que a jornada estava apenas começando. Diferenciar é só o começo!

Documento sem título